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Fundamentos

Um texto, e quem voltou a ele.

A psicanálise tem um fundador e tem um leitor que a devolveu a si mesma. Freud inventou um método a partir do que a medicina de seu tempo descartava; Lacan, cinquenta anos depois, disse que era preciso voltar ao texto de Freud para reencontrar o que a própria psicanálise havia amansado. Esta página conta as duas histórias e o fio que as liga.

1856 — 1939

Sigmund Freud

A invenção de um método.

Retrato de Sigmund Freud segurando um charuto, fotografado por Max Halberstadt por volta de 1921.
Sigmund Freud, c. 1921. Fotografia de Max Halberstadt. Domínio público.

Nasceu em 6 de maio de 1856 em Freiberg, na Morávia — hoje Příbor, na Chéquia. A família mudou-se para Viena quando ele tinha quatro anos, e foi lá que ele passou quase toda a vida: formou-se em medicina pela Universidade de Viena em 1881, e por décadas atendeu no mesmo endereço, Berggasse 19.

Entre 1885 e 1886 esteve em Paris, na Salpêtrière, com Jean-Martin Charcot. O que viu ali mudou seu percurso: Charcot tratava a histeria como um objeto legítimo de investigação clínica, e não como simulação. Freud voltou a Viena convencido de que havia sentido no sintoma — e de que esse sentido não era acessível à consciência de quem sofria.

Com Josef Breuer publicou os Estudos sobre a histeria, em 1895. É ali que aparece o caso de Anna O. e a expressão que ela mesma cunhou para o tratamento: a cura pela fala. Freud logo abandonaria a hipnose que herdara de Charcot, substituindo-a pela associação livre — pedir que a pessoa diga o que lhe vier, sem selecionar. O método nasce dessa renúncia: não é o médico que sabe, é a fala que conduz.

Em novembro de 1899 publicou A interpretação dos sonhos, com o ano de 1900 impresso na folha de rosto. É o livro que ele considerava sua descoberta mais importante, e onde afirma que o sonho é a via régia para o inconsciente. Seguiram-se os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, que lhe custaram caro em reputação, e as conferências na Clark University, nos Estados Unidos, em 1909 — a primeira vez que a psicanálise foi reconhecida fora da Europa.

O pensamento não parou de se refazer. Em 1920, Além do princípio do prazer introduz a pulsão de morte e desmonta a ideia de que o psiquismo busca apenas o prazer. Em 1923, O eu e o id apresenta a segunda tópica — isso, eu e supereu —, substituindo o modelo anterior. No mesmo ano lhe foi diagnosticado um câncer na mandíbula, que o acompanharia por dezesseis anos e mais de trinta cirurgias. Em 1930 publicou O mal-estar na civilização, onde pergunta o que a cultura cobra de cada um em troca de proteção.

Em 1933 seus livros foram queimados em Berlim. Em 1938, com a anexação da Áustria, deixou Viena aos oitenta e dois anos e foi para Londres. Morreu ali em 23 de setembro de 1939, poucas semanas depois do começo da guerra.

O que ele deixou como ferramenta

  • O inconscientenão um porão de lembranças, mas outra cena, que produz efeitos sem passar pela consciência.
  • A associação livredizer sem selecionar. A regra fundamental, e a mais difícil de cumprir.
  • A transferênciao que se repete com o analista, e que por isso pode ser trabalhado ali.
  • O recalqueo que foi expulso da consciência e retorna deformado: no sonho, no lapso, no sintoma.
  • O sintoma como formação de compromissonão um defeito a corrigir, mas uma solução que o sujeito encontrou.
  • As duas tópicasinconsciente, pré-consciente e consciente na primeira; isso, eu e supereu na segunda.
Retrato sentado de Sigmund Freud, fotografado por Ferdinand Schmutzer em 1926.
Sigmund Freud, 1926. Fotografia de Ferdinand Schmutzer. Domínio público.

1901 — 1981

Jacques Lacan

O retorno a Freud.

“O inconsciente é estruturado como uma linguagem.”

A fórmula que reorganiza a leitura de Freud.

Nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901 — um ano depois de A interpretação dos sonhos chegar às livrarias. Formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria. Sua tese de doutorado, defendida em 1932, tratava da psicose paranoica em suas relações com a personalidade, a partir do caso que ficou conhecido como Aimée. Nos mesmos anos circulava entre os surrealistas, e essa proximidade com a arte de vanguarda nunca o abandonou: a linguagem, para ele, jamais seria um instrumento neutro.

Em 1936, no congresso de Marienbad, apresentou pela primeira vez o estádio do espelho. Foi interrompido antes de terminar. A versão que ficou conhecida é a de 1949, apresentada em Zurique. A tese é dura: a imagem de si que o bebê reconhece no espelho é uma antecipação — ele se vê inteiro antes de sê-lo. O eu nasce, portanto, de uma identificação com uma imagem exterior, e carrega esse desencontro para sempre.

O ano decisivo é 1953. Lacan pronuncia o texto que ficou conhecido como Discurso de Roma — Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise — e nele desloca o eixo da psicanálise para a linguagem. No mesmo ano começa o Seminário, que sustentaria semanalmente, em público, por vinte e sete anos, até 1980. O Seminário é oral: Lacan pensava falando, diante de uma sala.

Sua relação com as instituições foi conflituosa do início ao fim. Em 1963 seu nome foi retirado da lista de analistas didatas da associação internacional — episódio que ele próprio chamou de excomunhão. No ano seguinte fundou a École freudienne de Paris e abriu o Seminário 11, sobre os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Em 1966 reuniu seus textos nos Écrits, livro difícil e vendido aos milhares. Em 1980 dissolveu a própria escola. Morreu em Paris, em 9 de setembro de 1981.

O que Lacan chamou de retorno a Freud não era reverência. Era a suspeita de que a psicanálise havia se acomodado — que, ao virar profissão, tinha trocado a radicalidade do texto freudiano por um manual de adaptação. Voltar a Freud, para ele, era voltar a ler o que Freud escreveu, na letra, incluindo o que nele resistia a virar doutrina.

O que ele deixou como ferramenta

  • Os três registrosimaginário, simbólico e real: os três registros em que a experiência se organiza.
  • O estádio do espelhoo eu como imagem antecipada, e não como centro de comando.
  • O significanteo que representa o sujeito para outro significante. A cadeia importa mais que o sentido de cada elo.
  • O desejo é o desejo do Outronão se deseja no vazio: deseja-se a partir do lugar que se ocupa para o outro.
  • O objeto ao que causa o desejo e que, por definição, não se alcança.
  • A sessão de tempo variávela duração como intervenção, e não como contrato.

Uma linha, dois nomes

A cronologia entrelaçada.

Em ordem cronológica, alternando os dois: é aqui que o fio aparece.

  1. 1856FreudNasce em Freiberg, na Morávia.
  2. 1885FreudVai a Paris estudar com Charcot, na Salpêtrière.
  3. 1895FreudEstudos sobre a histeria, com Josef Breuer.
  4. 1899FreudA interpretação dos sonhos (com 1900 na folha de rosto).
  5. 1901LacanNasce em Paris.
  6. 1905FreudTrês ensaios sobre a teoria da sexualidade.
  7. 1909FreudConferências na Clark University, nos Estados Unidos.
  8. 1920FreudAlém do princípio do prazer: a pulsão de morte.
  9. 1923FreudO eu e o id. No mesmo ano, o diagnóstico do câncer.
  10. 1930FreudO mal-estar na civilização.
  11. 1932LacanTese de doutorado sobre a psicose paranoica.
  12. 1936LacanApresenta o estádio do espelho em Marienbad. É interrompido.
  13. 1938FreudDeixa Viena para Londres.
  14. 1939FreudMorre em Londres, em 23 de setembro.
  15. 1949LacanA versão conhecida do estádio do espelho, em Zurique.
  16. 1953LacanDiscurso de Roma. Começa o Seminário.
  17. 1963LacanSeu nome sai da lista de didatas da associação internacional.
  18. 1964LacanFunda a École freudienne de Paris. Seminário 11.
  19. 1966LacanPublica os Écrits.
  20. 1980LacanDissolve a própria escola.
  21. 1981LacanMorre em Paris, em 9 de setembro.

Freud e Lacan não são um par de autores a serem estudados em ordem. São duas maneiras de sustentar a mesma pergunta — o que se pode fazer com aquilo que não se escolhe. Na Comunidade Dédalus, os dois atravessam as Dimensões: o texto-fonte na Dimensão Fundamentos, a prática na Dimensão Clínica, e as divergências entre as escolas na Dimensão Escolas.

Retratos de Sigmund Freud em domínio público: Max Halberstadt (c. 1921) e Ferdinand Schmutzer (1926), via Wikimedia Commons. Não há fotografia de Jacques Lacan nesta página porque as imagens disponíveis dele ainda estão protegidas por direitos autorais.